Largado no sofá ao som do motor da geladeira apenas fixava seus olhos aos olhos do mar. “Seria tão óbvio chama-lo assim. ‘Olhos do mar’” pensou “Isso tem que significar algo pra mim, a vida tem que significar algo pra mim…” repetia mentalmente, até pausar.
Bebeu o ultimo gole da sua cerveja e percebeu o que precisava; precisava comprar mais. Era isso, precisava comprar mais cerveja! Os olhos que o inspirara saltaram em sua mente, aquela moça, ela é o quadro, ela é o sentido do quadro. Ele poderia pedir a opinião dela. Talvez ele conseguisse isso se fosse um desses românticos de filme, mas era tímido, não tinha cavalo branco e muito menos olhos azuis. Por outro lado, lidava com uma daquelas belezas de cinema, ou pelo menos era assim que aquela balconista lhe surgia aos seus olhos.
Talvez seja isso do que se trata a beleza. Os gregos preferiam acreditar que a beleza era uma combinação de traços exatos, calculados poderia se ter a formula da beleza. Tomaz não. Para ele a beleza era sentida, transmitida e guiada pelo sentimento.
A beleza sofria ação de elementos externos, enfim. Levantou do sofá, com seu jeans sujo de tinta; o tirou e tirou os tênis. Levou até o cesto de roupa suja, que toda sexta feira levava até a lavanderia. Uma torre erguia-se ali, deixara a roupa da semana passada para essa semana, e pelo nível de ocupação de sua mente iria deixar mais uma vez.
Transitando a todo o momento frente ao quadro recém-pintado, seguiu em direção à janela do lado da porta, empurrou as cortinas cinza e finas e pode ver que a noite já tinha caído. Só restava a ele dormir e no dia seguinte, ah, que venha o dia seguinte…
Subiu os degraus, que rangiam a cada passo, até chegar ao seu quarto, seu cantinho, seu refúgio. Lançou mão de um cigarro e o acendeu enquanto deitava na cama. Antes de deitar, apoiara-se nos joelhos e fixara os olhos no fumo sendo queimado lentamente. Tragou e soltou a fumaça. Deitado com o braço esticado fora da cama para evitar qualquer incêndio, olhava para o teto, sem nenhum travesseiro na cabeça, apenas um que abraçava.
Se fosse a casa de sua mãe, ainda quando jovem, teria que tomar cuidado com o cheiro para não descobrirem que fumava, e com as cinzas no chão do quarto, o que tornava o ato de fumar totalmente estressante.
Adormeceu. Não durou muito e poucos raios de sol já cortavam sua janela em direção a sua face. Totalmente largado e com uma pequena azia, apoiou-se procurando a cortina para fechar a janela. Tamanha brutalidade, devido ao seu sono, que ao puxar a cortina de modo que pudesse correr e evitar que aqueles raios impedissem que continuasse a dormir e arrancou a cortina da parede e um súbito grito de raiva lhe saiu da garganta.
Pronto, acordara. Bufou todo o ar de seu pulmão ao mesmo tempo em que se jogava no colchão novamente limpando o olho. Olhos. Saltou da cama, e começou uma busca incessante em meio às roupas espalhadas pelo seu quarto por uma camiseta limpa.
- Não, você não pode ir assim… Você está fedendo ao seu tio Anthony, Tomaz – falou consigo mesmo, um hábito que adquirira quando começou a morar sozinho – se você já tem medo que ela não fale com você, imagina se você for cheirando assim… – levantou o ombro e conferiu seu próprio cheiro, enquanto inevitavelmente reproduzia uma careta – ainda não acredito que eu estou realmente pensando em ir falar com aquela garota.
Entrou no banho, enquanto equilibrava a ducha entre quente como o inferno e gelado como o polo sul, pensava como chegar para conversar com a garota. Fazendo uma voz completamente estúpida, coisa que ele fazia quando se imitava, começou uma ladainha durante a ducha completa, daquelas que tiram a sujeira de um mendigo que vive a dez anos na rua.
- Olá você vem aqui com que frequência?! – riu da própria besteira que disse; é claro que com uma frequência que ela nem queria pensar, ela trabalhava lá, e até onde sabia ninguém sonha em ser balconista de uma mercearia de esquina, ouvir uma pergunta dessa poderia lhe sair completamente irônico – Oi, você é nova aqui? – se ela disser que já trabalha há muito tempo? Tomaz não teria mais o que falar – Oi, eu sou um idiota e estou tentando perguntar se você quer sair comigo, e já sei que você vai dizer não…
Desligou o chuveiro, e se enrolou com a toalha. Ainda molhado jogou a toalha em qualquer lugar do quarto e saiu andando em direção à cozinha. Pegou a calça no balcão, uma camiseta no sofá, e o tênis que ainda estava na entrada da casa com as mesmas meias. Seu cabelo ainda molhado pingava algumas gotas na camisa verde musgo, que deixava marcas escuras. Pegou sua carteira e uma jaqueta.
Abrindo a porta e fechando um pouco os olhos para a claridade, seguiu andando pelo caminho que já conhecia. Tudo igual, monotonia definia a cidade naquela época. Antes de atravessar a rua, parou uma bola com o pé que vinha em sua direção de alguns meninos que brincavam mais adiante. Chutara a bola, agora entende porque nunca foi para esportes, ele era horrível. Existia algum universo paralelo que jogavam a bola para o lado completamente oposto ao qual ele a chutava.
Avistou a mercearia, respirou fundo, atravessou a rua e parou frente a elas – mercearia e balconista, que a essa hora já estava trabalhando, atendendo um casal de velhinhos que mal conseguia pegar as compras no carrinho, porém sustentava um sorriso nos lábios, sem desenhar um sorriso, mas com um ar gracioso.
Entrou com coragem na loja, foi até a geladeira, comprou uma caixa com seis garrafas de cerveja e pegou uns biscoitos.
Em pé na fila com o braço estendido carregando a caixinha de cerveja e na outra entre os dedos e o pacote de biscoito, era o terceiro a ser atendido. Respirava fundo, e um frio lhe adentrava e o deixava ainda mais nervoso. Ouviu o barulho do caixa sendo fechado e era sua fez, arrastou as compras e estava diante agora dos olhos azuis, que prontamente pegava suas compras, passava na máquina, e empurrava para os lados.
Nada brotava em sua mente, mexia os lábios, ou pelo menos tentava. O silêncio reinava entre os dois, até ser rompido.
- Total de quinze euros. – falou a moça - mais alguma coisa? - finalizou, encarando-o a espera de uma resposta, como quem soubesse o que ele tinha a pergunta-la.
“Total de quinze euros”… “Total de quinze euros”… Repetia em sua mente como um coro dos anjos. Sua voz não era grave que a fazia parecer um homem com seios, nem fina ao ponto de ficar enjoado, tinha o tom certo.
- Um maço de cigarro - falou apontando para o de sua preferência e sendo rapidamente atendido pela moça que cerrou os lábios com um sorriso que não poderia nem sequer ser considerado um.
Abriu a carteira, pegou o dinheiro e colocou no balcão. Sorriu com o canto da boca, e a moça retribuiu. Fim. Empacotara suas coisas e saíra da loja. Ouvindo a voz ainda ecoar em sua mente. Até ser interrompido por si mesmo
- IDIOTA! – falou com um tom alto no meio da rua, que algumas pessoas olharam para ele com cara de espanto. Andou até em casa, sem dizer mais uma palavra, e sem pensar em outra coisa além do quão ridículo fora.